Resposta

Paradigma (do grego parádeigma) literalmente modelo, é a representação de um padrão a ser seguido. É um pressuposto filosófico, matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo científico; uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas.


Thomas Kuhn, físico americano célebre por suas contribuições à história e filosofia da ciência em especial do processo que leva à evolução do desenvolvimento científico, designou como paradigmáticas as realizações científicas que geram modelos que, por período mais ou menos longo e de modo mais ou menos explícito, orientam o desenvolvimento posterior das pesquisas exclusivamente na busca da solução para os problemas por elas suscitados.

Em seu livro a Estrutura das Revoluções Científicas apresenta a concepção de que "um paradigma, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma",e define "o estudo dos paradigmas como o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará mais tarde".

Beto Hoisel, autor de um ensaio ficcional, que aborda como a ciência de 1998 haveria de se encontrar em 2008, chama atenção para o aspecto relativo da definição de paradigma, observando que enquanto uma constelação de pressupostos e crenças, escalas de valores, técnicas e conceitos compartilhados pelos membros de uma determinada comunidade científica num determinado momento histórico, é simultaneamente um conjunto dos procedimentos consagrados, capazes de condenar e excluir indivíduos de suas comunidades de pares. Nos mostra como este pode ser compreendido como um conjunto de vícios de pensamento e bloqueios lógico-metafísicos que obrigam os cientistas de uma determinada época a permanecer confinados ao âmbito do que definiram como seu universo de estudo e seu respectivo espectro de conclusões adredemente admitidas como plausíveis.

Na comunicação 3 de seu livro Anais de um simpósio imaginário, Hoisel destaca ainda que uma outra conseqüência da adoção irrestrita de um paradigma é o estabelecimento de formas específicas de questionar a natureza, limitando e condicionando previamente as respostas que esta nos fornecerá um alerta já nos foi dado pelo físico Heisenberg quando mostrou que, nos experimentos científicos o que vemos não é a natureza em si, mas a natureza submetida ao nosso modo peculiar de interrogá-la.





Talvez a maneira mais forte de definir o conceito de paradigma seja dizer que ele representa os conteúdos de uma visão de mundo. Isso significa que as pessoas que agem de acordo com os axiomas de um paradigma estão unidas, identificadas ou simplesmente em consenso sobre uma maneira de entender, de perceber, de agir, a respeito do mundo.

Os que partilham de um determinado paradigma aceitam a descrição de mundo que lhes é oferecida sem criticar os fundamentos íntimos de tal descrição. Isto significa que o olhar deles está estruturado de maneira a perceber só uma determinada constelação de fatos e relações entre esses fatos. Qualquer coisa que não seja coerente com tal descrição passa desapercebida; é vista como elemento marginal ou sem importância.

Quer um exemplo? Até alguns anos atrás energia elétrica não era problema para o Brasil nem para os brasileiros. A única coisa que um cidadão comum sabia sobre o assunto era que ligando o interruptor da sala, a luz acendia. Vivíamos com a idéia de que a natureza nos forneceria energia para sempre. A natureza era vista, então, com um grande supermercado cujas mercadorias nunca acabariam. Bastava pegar um pouco de energia na prateleira e pagar por ela. Se precisássemos de mais, bastava pegar e pagar. Este era o paradigma que orientava nossa visão de mundo com relação ao consumo de energia, e ninguém imaginava que pudesse ser diferente. Neste cenário, ninguém dava importância, por exemplo, para lâmpadas mais econômicas, ou para banhos de chuveiro mais curtos, ou para aquecedores solares. Eles existiam, mas não eram vistos como importantes, pois o nosso paradigma os descartava. Não precisávamos deles. De repente, tudo mudou. Surgiu o risco de um apagão. Descobrimos que estávamos enganados, e que a energia é finita. Se não soubermos trabalhar adequadamente com a natureza, ficaremos sem energia. Isso significou uma mudança em alguns de nossos paradigmas, e, de uma hora para a outra, as lâmpadas econômicas sumiram dos supermercados. Todo mundo queria comprá-las, todos foram atrás de aquecedores solares e começaram a contar os minutos do banho no chuveiro. O que aconteceu? O mundo mudou? Não, mas o paradigma que o descrevia sim. Da descrição de um mundo com energia infinita, passamos a uma outra descrição. Mudaram nossos paradigmas.



Mas aqui há uma diferença entre as pessoas comuns e os cientistas. Você deve se lembrar que vários pesquisadores já alertavam há anos para o risco do apagão, não é? Que diferença é essa, então? Normalmente, os homens e mulheres comuns (ou seja, nós, em nosso dia-a-dia), não nos damos conta dos paradigmas que orientam nossa ação. As pessoas do senso comum dificilmente podem ver as forças que governam sua vida. Já o cientista, ao menos dentro do restrito espaço do seu trabalho disciplinar, deve tentar manter claro quais são as premissas, os valores, os dogmas, os princípios que estruturam seu olhar sobre o fenômeno que está observando. Isto não significa que ele consiga tal proeza na sua totalidade, mas que, enquanto cientista, ele sabe que o que observa é o resultado de conexões profundas com sistemas de valores que fazem parte de uma maneira particular de ver o mundo. Saber isto não mudará o resultado de sua pesquisa, só o manterá antenado com o leque de possibilidades que seu paradigma lhe permite perceber e com os limites que este lhe impõe impiedosamente. Saber isto lhe permitirá, e isto é o mais importante, saber quando ele está agindo dentro dos limites do paradigma, e quando e porque razões ele poderá ou deverá transgredi-los.

Finalmente, saber sobre os paradigmas da ciência que pratica, permite ao cientista, transitar com liberdade entre eles, criticar uns e assumir outros, combater uns e defender outros, e inclusive, misturar, quando necessário, elementos de diversos paradigmas.

Da mesma forma, não entender o sentido, a dinâmica e as possibilidades dos paradigmas, deixa ao cientista a mercê da ditadura que cada visão de mundo impõe aos que acreditam nela. O cientista não saberá realmente porque enxerga isto e não aquilo, não entenderá realmente o sentido de séries de fatos, não terá condições de interpretar coerentemente conjuntos de fenômenos, não terá condições de afirmar ou negar com autoridade nem poderá sustentar seus pontos de vista nem suas críticas. Da mesma maneira, não poderá enfrentar críticas e não terá condições intelectuais de defender o seu trabalho. Isto é válido para qualquer área, tanto das ciências naturais como das ciências sociais e humanas.

Portanto, o estudante, iniciante no campo das ciências, deve considerar a necessidade de estabelecer um mapa paradigmático que lhe permita entender sua posição como estudante de uma determinada ciência e a posição desta frente ao contexto de todas as ciências que emergiram no que chamamos de modernidade.



Clique aqui para ver os delineamentos básicos de um mapa paradigmático. Ele fica aqui, por razões de espaço e de formato, necessariamente incompleto, mas pode ser a base para que você o transforme, agregando-lhe, ao longo de seus anos de estudo na universidade, as informações pertinentes para transformá-lo num mapa completo e funcional aos seus interesses intelectuais.

Neste mapa podemos ver que essas tradições estão na base de diferentes paradigmas na ciência. O positivismo e o neopositivismo, por exemplo, são basicamente monistas, pois são uma forma de ver o mundo como uma unidade que parte de não aceitar a distinção entre fenômeno e essência. Já a dialética, o funcionalismo e o estruturalismo são paradigmas dualistas, pois fundamentam suas procuras na base de polaridades que se opõem: na dialética, por exemplo, a idéia de uma tese que se opõe uma antitese . O materialismo é de cunho dialético, portanto, dualista. Finalmente, a tradição pluralista cobre os expoentes das teorias de sistemas, da fenomenologia e da hermenêutica: paradigmas que partem de uma visão de mundo na qual múltiplos sistemas, fenômenos ou interpretações convivem gerando uma multiplicidade de mundos paralelos. Daí emergem, então múltiplas possibilidades de leitura do mundo, criando um mosaico fluido de configurações.

É necessário dizer que este mapa não passa de um exercício arbitrário de classificação. Que ele não corresponde à realidade histórica das ciências. Mas enquanto instrumento de navegação e de orientação permite que um estudante navegue sem sentir-se perante uma imensidão de nomes, dados, tendências, teorias, sem fim. É claro, então que dependendo de quem faça a classificação haverá diversas maneiras de entender as mesmas escolas, os mesmos paradigmas. O que significa que na realidade eles continuam a ser extremamente fluidos e relativos.

Neste mapa faltam também os detalhes: nomes das ciências que se agrupam dentro de cada paradigma, nomes dos autores e das teorias que podem ser relacionadas a cada um. Isto, devido ao fato de que este mapa pretende abarcar a ciência moderna como um todo, e, por isso, é muito geral. Cabe a você continuar a completá-lo desde sua área de estudo: ver por exemplo, se você estuda biologia quais são os autores e teorias positivistas e neopositivistas dentro da sua área, quais os estruturalistas, o funcionalistas, quais os sistêmicos, os fenomenólogos ou hermeneutas. Tentando levar isso aos mínimos detalhes qualquer um pode manter um certo controle de toda a informação que está recebendo ao longo dos semestres de estudo na universidade. O mesmo se aplica para todas as áreas de atuação.



OUTROS MAPAS

Outro exemplo de mapa paradigmático é apresentado pelo físico e historiador da ciência Fritjof Capra, no seu livro “O Ponto de Mutação” (1995). Ali, o autor divide a ciência moderna em dois grandes paradigmas: o mecanicista e o sistêmico. O paradigma mecanicista agrupa todos os paradigmas que aceitaram a visão de mundo de René Descartes, segundo a qual o mundo natural é uma maquina carente de espiritualidade, e, portanto, deve ser dominada pela inteligência humana e ser colocada a seu serviço.

Nessa visão, o mundo opera a partir de leis matemáticas, iguais a qualquer máquina, o que permitiria que, ao ser elas estabelecidas rigorosamente, o homem teria assim, uma copia fiel do mundo. Esta visão agrupa o positivismo e o neopositivismo e a dialética materialista. Em suma, agrupam-se aqui as escolas de pensamento monistas e algumas dualistas. Em concreto, fazem parte desta linha de pensamento todas as ciências modernas que hoje consideramos clássicas: física, química, biologia, psicologia, sociologia, medicina, entre outras, e todas as decorrências tecnológicas que daí resultaram.

No paradigma sistêmico, Capra introduz algumas das ciências que têm efetivado uma mudança radical na visão clássica (visão mecanicista) ou cartesiana de mundo. A visão sistêmica ou holista, rejeita a dicotomia entre homem e natureza, e propõe uma postura de integração entre esses dois pólos que permita um grau de compreensão voltado para a interação de processos, a multiplicidade das interpretações, a hetoregeneidade de mundos possíveis, de observadores e leituras possíveis.

O paradigma sistêmico estaria, na visão de Capra, substituindo “os conceitos de uma visão de mundo obsoleta – a visão de mundo mecanicista da ciência cartesiana-newtoniana” (Capra, 1995:14) . Capra elabora no seu livro uma descrição detalhada de como o mecanicismo cartesiano foi incorporado por todas as ciências tradicionais, levando à crise individual, social e ambiental de caráter global que vivemos hoje.

O novo paradigma, introduz, com a física de Einstein, parâmetros de mundo que permitem pensar a natureza, a sociedade e a psique humana de maneira inteiramente diferente da descrição mecânica. A visão mecanicista adota a idéia de que o mundo natural é regido deterministicamente por leis matemáticas em contraposição ao mundo humano, onde há o livre arbítrio. Já, a visão sistêmica propõe que a inter-relação entre homem e natureza, não permitindo uma separação tão simples. O paradigma sistêmico de Capra admite interações complexas entre homem e natureza, onde a subjetividade humana é afetada pela força da natureza, onde o observador é tomado pela sua psique (natureza íntima) e levado a observar de maneira particular um mundo que, ao mesmo tempo, deve compartilhar com outros. O que nos leva a ter não um mundo, mas tantos mundos quanto observadores participando, e tantas interações quanto sejam possíveis dependendo dos fatores em jogo.

O paradigma mecanicista privilegia a individualidade, a luta, a competição. O paradigma holístico prefere o coletivo, o cooperativo, o complementar. Se um vê homogeneidade, o outro vê heterogeneidade. Se aquele propõe autoridade, este afirma a liberdade. Onde um se propõe reduzir, o outro se permite complexificar. Onde um vê separação, outro vê redes.

Se os primeiros observam absolutos, os segundo advogam pela relatividade. Onde uns vem ordem, outros vem caos. Onde uns vem desordem, outros vem dinamismo.

O certo é que o paradigma mecanicista transformou o mundo medieval no mundo moderno que hoje vivemos. A tecnologia aplicada a todos os campos da nossa vida cotidiana, industrial e científica, é fundamentada nas descobertas da ciência mecanicista, positivista, e nossas sociedades e instituições, nossa individualidade e subjetividade, funcionam de acordo com os modelos dialéticos, materialistas. O que significa que de fato, a crise que se vive hoje em todas as áreas, desde a ecológica, passando pela social até a individual e espiritual, é responsabilidade do paradigma cartesiano, como propõe Capra no seu livro.

Diversos cientistas em todos os campos estão explicitando suas adesões ao novo paradigma. Na biologia, por exemplo, Humberto Maturana, vê os fenômenos bióticos no mesmo sentido que Einstein via os fenômenos físicos. Prigogine na química, Jung na psicologia, Luhman na sociologia, Morin na epistemologia, etc. As novas tecnologias telemáticas e os mais diversos aplicativos tecnológicos operam no mesmo sentido: conectividade, interatividade, rede, complementaridade, interação, multiplicidade.

Cabe a cada um de nós, como futuros profissionais, saber a partir de qual paradigma estaremos falando e agindo. É o mínimo que podemos esperar do nosso curso: que ele nos ajude a nos localizar em meio a diferentes paradigmas e tradições de pensamento, para que cada um de nós possa, também, fazer a nossa parte na construção destas tradições e para que essa história continue no futuro.





Tomas



Muitas vezes pode parecer incongruente, mas a ciência muda. Não são raros os momentos em que teorias muito bem estabelecidas, são completamente abandonadas em detrimento de outra. Da mesma forma, outras tantas teorias são fortemente modificadas com o decorrer dos anos, de modo que tornam-se substancialmente diferentes do que eram originalmente. Essa aparente falta de firmeza nas idéias científicas, contrasta diretamente com a visão popular de que a ciência é um empreendimento de verdades e certezas. Não é.

O físico Thomas Kuhn dedicou parte de sua vida tentando entender esse movimento transformador da ciência. Em 1962 Kuhn publicou “A Estrutura das Revoluções Científicas”, um ensaio polêmico que usava uma abordagem histórica para defender que a ciência gera paradigmas que, eventualmente, são substituídos por outros no decorrer do desenvolvimento científico. Mas vamos entender melhor essa questão.

A definição de paradigma de Kuhn gerou confusão quando da publicação da primeira versão do livro. Com efeito, uma leitora chegou a dizer que o termo é usado de 22 maneiras diferentes. Kuhn no entanto só admitia dois significados principais. Neste texto iremos abordar apenas um significado. O paradigma é um modelo de mundo que compreende o conjunto de teorias que buscam explicar os fenômenos estudados.

Neste caso o que um paradigma faz é estabelecer algumas questões sobre o mundo físico que são então investigadas na tentativa de se encontrar respostas. No entanto, um paradigma parece nunca conseguir responder todas as questões que propõe. A ciência não é um empreendimento de respostas. Quanto mais sabemos sobre determinado fenômeno, mais questões surgem. Isso não é exatamente um problema, ao menos não inicialmente. Esse processo investigativo é o que Kuhn chamou de “ciência normal”, ou seja, o período aonde determinados paradigmas são aceitos e investigados.

O que se passa é que o número de questões, ou anomalias, que não podem ser resolvidas com o paradigma estabelecido atinge níveis críticos, é o início do período conhecido por “crise”, aonde novos paradigmas tentam responder de maneira mais eficiente as questões que o paradigma aceito não consegue responder. O período de crise é marcado pela divisão da comunidade científica entre o paradigma aceito e o paradigma em ascensão. Eventualmente o paradigma em ascensão ganha a preferência e substitui o antigo, é o momento que Kuhn chamou de “revolução científica”.

É evidente que eu resumi bem o núcleo do trabalho de Kuhn. Em geral o processo de ascensão e queda de um paradigma é complicado, leva tempo e gera discussões infindáveis. Quando um novo paradigma é proposto, em geral não é bem aceito pela comunidade científica. A razão, segundo Kuhn, é o comprometimento com o paradigma estabelecido. Quando anomalias são detectadas, os cientistas não tendem a considerar a questão como um problema no paradigma. Buscam adequar a anomalia ou simplesmente a ignoram como um fator que não pode ser melhor estudado no momento. No entanto, o acumulo constante dessas anomalias podem gerar o descrédito do paradigma, o que em geral ocorre nos cientistas mais jovens e menos comprometidos com o modelo de mundo estabelecido.

Kuhn ainda defende o que ele chamou de “princípio da incomensurabilidade”. O princípio define que paradigmas diferentes estabelecem uma visão muito distinta de mundo, de modo que não podem ser comparados. Isso não significa que o novo paradigma é melhor que o anterior, apenas estabelece que eles são em geral incompatíveis. No entanto, se o paradigma em ascensão não é necessariamente melhor que o paradigma já estabelecido, qual a justificativa para a substituição do velho paradigma pelo novo?

As razões são as mais variadas. Eventualmente o novo paradigma pode responder com mais eficiência um número de questões maior que o anterior, ainda que não responda parte das questões já resolvidas pelo velho paradigma. É um processo curioso, aonde parte do conhecimento já conquistado é abandonado. O novo paradigma, ainda que não resolva tantas questões quanto o anterior, pode responder questões que tenham maior prioridade para a ciência. Essas prioridades mudam de acordo com a sociedade e época, de modo que o novo paradigma pode ser substituído no futuro por um velho paradigma.

É justamente este ponto das idéias de Kuhn que provoca desconforto em alguns membros da comunidade científica. É possível imaginar que o empreendimento científico é arbitrário, escolhendo seus modelos de mundo não por sua capacidade em explicar os fenômenos estudados, e sim por conveniência ou por interesses. Mas isso não é bem verdade, mudar de paradigma não é como trocar de posição política.

Uma analogia melhor seria dizer que mudar de paradigma é como escolher uma nova ferramenta para realizar um velho trabalho.





Seja nos filmes de Hollywood, seja em laboratórios de robótica, as tentativas de se construir uma réplica artificial de seres humanos não são novidade. Existe um efeito bastante curioso relacionado a este fato, conhecido como “vale da estranheza”.

Proposto em 1970 por Masahiro Mori, o conceito diz que quando uma tentativa de produzir uma pessoa artificial chega próximo à perfeição, sem atingí-la de fato, o resultado gera uma espécie de estranhamento. A foto abaixo demonstra bem o efeito.



Estranha? Eu?

O que acontece é que nascemos com uma espécie de “instinto”, uma capacidade intrínseca de reconhecermos nossos “iguais”. Quando nos deparamos com robôs como o da foto acima, algo em nossos cérebros sinaliza que “há algo errado ali”.

Por estes dias, refletindo um pouco sobre algumas idéias de Kant, divulgação científica e sobre ciência moderna, tive uma espécie de insight. E se for o caso de a ciência se encontrar em uma situação similar à causada pelo vale da estranheza? Explico do início.

Para Kant, o homem vê o mundo através de uma “moldura” criada por nossos sentidos. Não só os físicos, como a visão, tato e olfato. Mas também por nossos sentidos intelectuais, nossa capacidade de abstração e de compreensão. Partindo deste pressuposto, podemos dizer que qualquer atividade humana esta inerentemente atrelada aos indivíduos e seus valores.

Se assim o é, então a ciência não é exceção. Como empreendimento humano, ela esbarra em questões de valores, moral e política. Mas não é esta a idéia que se “vende”. Com efeito, é costume usar aquela velha máxima positivista de que a ciência é imparcial, neutra e autônoma.

A questão é que quando postulamos que um dos maiores esforços coletivos da história da humanidade não possui em sua constituição características tão humanas, condenamos a ciência ao seu próprio vale da estranheza. Afinal, é um construto humano que carece de humanidade.

E é aí que o problema se agrava. Se de fato a ciência esta situada em seu próprio vale da estranheza, então é natural que as pessoas que não trabalham diretamente no meio científico sintam uma determinada repulsa, uma desconfiança ou algum tipo de receio. Eu até poderia argumentar que isso explica a facilidade que as pessoas tem pra criticar a ciência, mas a dificuldade em que estas mesmas pessoas tem em reconhecer seus méritos. Mas é claro, seria especular demais, pra não dizer inconsistente.

Em todo caso, o trabalho de divulgação científica sofreria um golpe razoável. Afinal, divulgação científica é feita, partindo do pressuposto de que o problema do cidadão médio em compreender a ciência esta na complexidade e quantidade da informação produzida. E o problema pode ser ainda pior.

Além da complexidade e quantidade da informação produzida, poderia existir ainda uma má vontade natural, e subconsciente, em aceitar o empreendimento científico. O que seria muito complicado de se resolver.

Evidente que estou sendo completamente especulativo. Provavelmente bastante exagerado e potencialmente apocalíptico. Mas seria bom refletir se a ciência quer mesmo ser isenta de características humanas, e se a divulgação científica não aposta fichas demais em um pressuposto que pode parecer óbvio, mas que talvez seja só a ponta de um iceberg









O Carlos, lá do Lablogatórios, escreveu por estes dias um texto que trata do ego dos cientistas. No texto ele levanta duas questão que, para mim, são muito interessantes e permitem boas reflexões. Coloco abaixo a parte central das duas questões (mas por favor, NÃO deixem de ler o texto integral).

A primeira questão diz: “…O bom disso é que a Ciência possui mecanismos de auto-correção, e que são usados freqüentemente…”. E a segunda: “…se um cientista vir uma oportunidade de destruir uma verdade científica, ele o fará imediatamente e com prazer…”.

Vamos começar de trás pra frente, tratando primeiro da questão sobre verdade científica e refutação. Me é um pouco estranho o uso do termo “verdade científica” pra se referir a uma proposição, ou teoria. Talvez por causa do meu pé atrás com a palavra “verdade”. É um termo filosoficamente tão controverso, que o evito sempre que posso. Mas pra além disso, ainda temos a questão de que essencialmente a ciência não pode ser feita de verdades.

Quer dizer, ela pode tentar pra valer. Mas como sabemos, a verdade é um objetivo inalcançável. E não podia ser diferente, todo conhecimento científico é passageiro. O que nos leva ao segundo ponto desta questão, a refutação. É verdade (ops, olha a verdade ai!) que cientistas tem o ego inflado. Alguns mais que outros. E não há verdadeiramente nada de errado com isso.

A ciência ganha muito com grandes controvérsias e brigas de ego. São inúmeros os casos na história de grandes “pendengas” científicas que, de uma forma ou de outra, levaram ao desenvolvimento de novas teorias, ou a popularização de teorias menos comentadas. Já recomendei um livro que trata de forma bastante boa esse tema. O caso é que é de se esperar que qualquer bom cientista tenha uma posição questionadora. E isso não significa dizer que se deve questionar tudo de forma cega e irracional.

O questionamento tem um papel fundamental no primeiro ponto. Quando o Carlos fala em “mecanismos de auto-correção”, suponho que ele esteja se referindo ao peer review, ou revisão por pares. Em termos mais simples, todo trabalho científico deve passar por um processo de revisão feito por colegas de área do cientista que publicou o artigo. Além do peer review, é suposto que existam métodos eficientes de se investigar qualquer teoria científica de forma mais cuidadosa. E em geral há mesmo.

Mas isso não significa que a ciência se “auto-corrija”. Na verdade, existem muitos casos aonde anomalias detectadas em teorias científicas são resolvidas com argumentos ad hoc, ou são muitas vezes ignoradas. Quando confrontada com uma anomalia, a comunidade científica parece agir de forma arbitrária, escolhendo para cada caso um tipo diferente de tratamento.

É mais ou menos o que o filósofo da ciência Imre Lakatos defende, embora de certa forma ele salve a ciência do relativismo completo, alegando que há regras para a aceitação de teorias ad hoc. Kuhn, como se sabe, não é tão “bonzinho”, e alega com todas as letras que a ciência tem mesmo uma base relativesca.

Em outros termos a ciência não parece se auto-corrigir, mas se auto-valida de maneiras nem sempre tão objetivas quanto gostamos de pensar.









Há um certo tempo me envolvi em uma controvérsia com um texto do G1 que fazia, digamos assim, uma pequena injustiça com Cláudio Ptolomeu. Discussões a parte, só hoje, estudando melhor a figura de Ptolomeu, é que me ocorreu que o trabalho do matemático carrega em si questões mais profundas.

Primeiro precisamos contextualizar. Ptolomeu viveu aproximadamente no ano de 160 d.C. Aparentemente passou toda sua vida em Alexandria e desenvolveu grandes trabalhos em astronomia, astrologia, geografia e etc. Sua obra mais conhecida, o “Almagesto”, é um livro constituído de 13 volumes que tem a difícil tarefa de descrever o universo.

É no 1º volume do Almagesto que Ptolomeu faz algumas proposições que hoje parecem ingênuas. Entre estas, a de que a Terra esta fixa no centro do Universo, enquanto o Sol, os planetas conhecidos à época e a Lua descrevem orbitas ao redor de nosso planeta. Sobre estas idéias, precisamos recuar um pouco na história.

O modelo geocêntrico de Universo remonta a Aristóteles. O grande filósofo grego, por conseqüência de sua teoria do movimento que será melhor explorado em outra oportunidade, propõe que a Terra ocupa um lugar ao centro do Universo, com todo o resto orbitando ao seu redor. Sua idéia é reafirmada com Hiparco, em 160 a.C. É de Hiparco que Ptolomeu parte para sua descrição de Universo.

Assim como Aristóteles, Ptolomeu fornece uma série de dados empíricos para comprovar que a Terra se encontra fixa no centro do Universo. Por exemplo, um objeto em queda livre caí, a não ser por ação do vento, invariavelmente em linha reta. Pode parecer um argumento ingênuo e, hoje sabemos, incorreto. No entanto, é preciso lembrar que se não tínhamos conhecimento sobre inércia ou gravidade em 400 a.C. com Aristóteles, também não tínhamos esse conhecimento em 160 d.C.

Partindo da premissa de que era o Sol que orbitava a Terra, e fazendo algumas medições como o movimento do Sol pelo céu em um período de um ano, Ptolomeu constrói todo um modelo bastante rigoroso de Universo. Veremos este modelo com mais detalhe no próximo texto.







Escrito muito antes da Ilíada e da Odisseia, a Epopeia de Gilgamesh conta-nos a história de um homem que toma a consciência de si próprio e descobre o medo da morte através da perda trágica daquele que ama, levando-o a iniciar uma busca desperada pela imortalidade. Depois de ter falhado todas as tentativas, sobretudo devido à impossibilidade de dominar o tempo, o homem regressa à cidade de Uruk, onde toma a decisão de escrever a sua epopeia, mesmo sem se aperceber que ao fazê-lo está a imortalizar a sua memória, que é a única que nos convém e que nos é possível. Em certo sentido vai ser este o corolário lógico das epopeias modernas na busca por uma imortalidade. Já esquecido do que o levou a ter vontade de viver para sempre, o homem moderno, digamos assim, procura materializar os seus sentimentos de terror e de perda, transformando-os em obstáculos transponíveis pela técnica. A manipulação genética, e todas as suas derivações mais ou menos sofisticadas, surge assim como uma espécie de epifenómeno de uma doença que, precisamente por ter momentos felizes, é levada a esquecer-se de si.

O espinho essencial de ser consciente

É normal que não estejamos atentos à vida porque habitualmente estamos entretidos com o que ela nos oferece. A vida tem manha. Distrai-nos com muitos problemas para que ela própria não se torne num problema. A vida tem um aspecto doentio. Que a vida é uma frenética correria para a morte é o seu sintoma mais óbvio. Aliás, correria essa que nega o sintoma precisamente porque acha que a morte está no fim da vida, quando na verdade a vida gasta-se e consome-se. A morte é então encarada como um abismo e enquanto assim for, a vida será sempre uma piada sem graça. Uma correria sem sentido mas com a aparência de sentido. Uma ilusão de haver mais qualquer coisa à nossa frente mas insconscientes do simples facto de estarmos vivos. A lucidez perante a vida, ou como dizia Álvaro de Campos, «o espinho essencial de ser consciente, a vaga náusea, a doença incerta, de me sentir», arrastaria consigo a angústia. Salva-nos a miopia de não nos enxergarmos com clareza. Salva-nos também os estratagemas hábeis que vamos impregnando no nosso modo de viver por forma que tudo isto não se transforme numa mais ou menos lenta agonia.

A ideia de imortalidade enquanto estratagema que nos distrai da vida

A ideia de imortalidade, ou melhor, a vontade de viver para sempre, surge então como uma utopia edificante cujo representante mais eloquente é o cristianismo. A matriz é universal. Há sempre alguém a mandar os outros fazer qualquer coisa em troca da vida eterna. Quando na verdade o embuste é evidente. Um pouco como no tempo em que diziam aos judeus que iam tomar banho, e lhes pediam inclusivé que decorassem o número do cabide onde tinham pendurado as suas roupas, quando na verdade, sem saberem, estavam voluntariamente a entrar numa câmara de gás. A promessa de vida eterna, ou até de um simples banho, são assim estratagemas que nos permitem acordar, viver e dormir tranquilos sem pensar nisso.

Porque o desespero paralisar-nos-ia por completo.A parábola do jardim do Éden é exemplar da necessidade que o homem tem em dominar o tempo. Porque ser imortal é precisamente isso, é exercer um domínio autoritário e totalitário sobre o tempo. É manipulá-lo ao seu jeito. É jogar com ele mas tomando como certeza que no final ele acaba sempre por perder. Nesse jardim havia duas árvores – a árvore da ciência do bem e do mal, e a árvore da vida. Da primeira o homem comeu o fruto e por isso foi expulso do jardim, que é agora guardado por querubins armados de espada flamejante para que o homem não se aproprie também da árvore da vida. Porque a imortalidade só pode ser alcançada pela redenção. E não uma imortalidade do corpo mas sim da alma. Aliás, uma imortalidade da alma que se faz à custa da mortalidade do corpo. O que, no imediato, quer dizer que esta vida que temos, feita de carne e osso, e que é única, não tem qualquer valor.

A vontade de viver para sempre resulta assim de uma inquetação humana profunda: a consciência de si. Esta consciência é como um espinho profundamente entranhado e que nos causa uma dor persistente e aguda. Aliás, uma dor que nos faz suplicar pelo seu fim. A dor é em grande parte dos casos o limite. E um limite que pode levar ao suicídio como um acto de desespero mas também de sobrevivência. Quando se quer a verdade, tortura-se, provoca-se dor. Ninguém a suporta. Ninguém a quer. Todos a evitam. Estar doente é ter dor. Quando dói queremos que essa dor termine o mais rapidamente possível. A imortalidade surge assim na forma de promessa. Na verdade, ela funciona como um potente analgésico. Elimina a dor.

Ciência e a promessa de imortalidade

Vivemos hoje tempos difíceis. Diz-se por aqui à boca cheia que as sociedades ocidentais vivem tempos de descrença. Não um tempo em que os homens não acreditam num deus, mas antes um tempo em que os homens deixaram simplesmente de acreditar. Seria então de esperar que, em consequência desta descrença, em grande parte devido a uma inesperada lucidez perante a corrupção dos valores dentro da própria Igreja, os homens caissem numa situação de uma angustiante solidão espiritual. Mas não é bem assim. É claro que tudo isto teve consequências. O capitalismo é necessariamente uma sociedade de violência, que corrompe as pessoas e as torna violentas. E uma violência que não é apenas física mas também, e sobretudo, psicológica, evidenciada naquilo que o filósofo León Rozitchner define como uma «violência normal», aquela que resulta da «vontade dos outros».

Porém, o homem moderno é incapaz de viver no vazio existencial. O sentido da vida é algo que lhe é ontológico e do qual depende como de pão para a boca se tratasse. Surpreendentemente, ou não, a ciência tem vindo a assumir esse papel. Com as suas promessas de cura e de alívio da dor, e sobretudo de imortalidade, a ciência, tal e qual a conhecemos hoje, tem vindo a assumir o aspecto de uma crença. Começou com o milagre dos antibióticos que iriam de uma vez por todas livrar-nos das doenças terríveis que ceifavam massivamente as vidas alheias. Começou com a penicilina, depois a estreptomicina. Vieram depois os anti-maláricos, os anti-depressivos, os anti-inflamatórios, os anti-piréticos, sempre os anti-qualquer coisa. O caso da raiva é eloquente da forma como uma descoberta científica pode santificar o seu descobridor. Louis Pasteur viveu num tempo em que a raiva matava milhares de pessoas. A Europa viva com muito medo de algo que não sabia combater. E ninguém suporta viver com tanto medo.

Neste contexto, a descoberta da cura para a raiva surgiu assim como uma espécie de milagre. Em todos os casos, o corolário era o mesmo. Íamos deixar de estar doentes. E se íamos deixar de estar doentes, então isso significava que íamos viver para sempre. Hoje, as promessas de cura são agora sintetizadas em fórmulas mais sofisticadas próprias do nosso tempo como seja a manipulação genética, a clonagem terapêutica de células estaminais ou a cirurgia fetal, ou ainda o advento da biónica, berradas todos os dias na televisão e nos jornais.

Nalguns casos estas promessas surgem disfarçadas de artigos científicos publicados em revistas altamente credíveis. O efeito mais imediato é que as pessoas passam a acreditar na ciência porque ela é a solução para todos os nossos problemas. Não interessa que mais de cinquenta anos depois ainda não tenhamos descoberto a cura para a SIDA. O que interessa é a promessa. Porque é ela que nos acalma a nossa dor e nos permite viver uma vida sem angústia. Os cientistas prometem que dentro de algum tempo vamos ser imortais.

E apesar da ideia ser entusiasmante, sobretudo porque confere ao cientista um poder imenso, ela não passa de uma mentira. Não sabemos tudo nem nunca vamos saber tudo. Porque a natureza é um alvo em movimento. Porque a natureza está constantemente a desafiar-nos. Ela resiste (veja-se o caso da resistência aos antibióticos, assunto cada vez mais sério). Ela resiste sempre.

Em 2006, a revista científica Nature publicou um artigo do biólogo franco-croata Miroslav Radman onde se descrevia o mecanismo de ressurreição da bactéria Deinococcus radiodurans que mesmo depois de morta é capaz de voltar à vida em poucas horas. E isto graças à capacidade genial e única de regenerar o seu material genético mesmo quando este se encontra fragmentado. Logo depois da publicação deste artigo, o senhor foi entrevistado por múltiplos órgãos de comunicação social, sempre tendo como epíteto que agora é que a medicina regenerativa ia vingar e que este era apenas o primeiro passo para a reconstituição neuronal e cardíaca e, claro está, para a imortalidade dos humanos.

Numa entrevista ao jornal La Nacion, este mesmo senhor esgrima argumentos, cria cenários, repete até à exaustão que tudo é possível, mas sobretudo faz promessas. E promessas com destinatários muito específicos. Porque não é ingenuamente que surge no meio de tudo isto a palavra ressurreição.

Aliás, é estratégico. Ainda na mesma entrevista, quando o jornalista o questiona se o instituto que acaba de fundar – Instituto Mediterrânico para as Ciências da Vida - irá trabalhar na ressurreição humana, o senhor responde que pediu inclusivé um financiamento ao Vaticano para trabalhar sobre a base molecular da ressurreição. Ora, estas patetices, que enchem as pessoas de expectativas, não passam de estratégias com vista a impressionar potenciais investidores. Além do mais, isto está de tal modo enviesado que ninguém é capaz de debater estas questões de um modo sério. Nestes tempos ndamos assim. De um lado, prometem a imortalidade daqui a não sei quantos anos. Do outro lado, por causa do aquecimento global e da predação assaz dos ecossistemas, anunciam o fim do mundo também daqui a não sei quantos anos. Ai eu!

O processo de santificação da ciência é uma ilusão perigosa. Como dizia François Jacob, «nada é mais perigoso do que a certeza de se ter razão». Porque com ela se pode manipular muito para além de gâmetas ou embriões. Pode-se inclusivamente manipular sociedades e implementar vontades. E ganhar muito dinheiro. Ou já se esqueceram dos tempos em que a ciência era usada com fins sociais absolutamente perniciosos? Lembram-se dos pressupostos da eugenia? Eu não me esqueço. E a gente não se pode esquecer. Porque se nos esquecermos disto, se aceitarmos tudo isto com uma passividade crítica própria de um homem térmita, se deixarmos que a ciência seja abusivamente mostrada ao grande público como uma espécie de Boa Nova, então será o fim da ciência. É por isso que hoje, agora, já, é urgente que se advirta as pessoas para não acreditarem em tudo aquilo que lêem ou que ouvem. Até mesmo quando é escrito ou dito por cientistas.







Karl Popper foi um grande filósofo austríaco bastante conhecido por sua contribuição para a filosofia da ciência. Foram suas idéias que fundaram o racionalismo crítico, que estabelece como critério de demarcação o princípio da falseabilidade. Em uma de suas contribuições mais geniais para a epistemologia, Popper comenta um pouco sobre seu conceito de conhecimento objetivo, e o terceiro mundo.

No texto clássico de seu livro de 1972 “Conhecimento Objetivo: Uma abordagem evolucionista”, Popper faz um exercício interessante. Propõe a existência de três mundos. O primeiro mundo é habitado por todas as coisas físicas, vivas ou não vivas. O segundo mundo é habitado pela consciência humana, “é o mundo da consciência ou dos estados mentais”, nas palavras do próprio Popper.

O terceiro mundo é habitado por conteúdos objetivos. Por conteúdo objetivo, podemos entender todo pensamento objetivo sobre algo, obras de arte, poesia, livros, conhecimento científico e por aí vai. Deste ponto em diante, é possível não só diferenciar um pensamento subjetivo de um pensamento objetivo, mas é também possível concluir uma independência do terceiro mundo.



Karl Popper

Para Popper, um pensamento subjetivo é aquele ligado à estados mentais ou uma determinada disposição de agir. São, portanto, habitantes do segundo mundo. No terceiro mundo estão os problemas, teorias e similares. Uma vez propostos, este conhecimento objetivo ganha materialidade através de alguma mídia, como livros, e isso garante a eles sua independência.

Se pensarmos na situação hipotética de uma catástrofe mundial, ou um holocausto, destruir todos os seres humanos, todas as nossas máquinas, cidades e traços de nossa civilização, sobrando no entanto nossas bibliotecas, é possível prever que uma futura civilização, não importando sua origem, poderia em tese ser capazes de decifrar nossos livros, acessando o terceiro mundo.

Veja que neste sentido, Popper considera muito mais importante a capacidade que um livro, ou um vídeo, ou um áudio, tem de ser interpretado do que o fato de ele ser realmente interpretado. Com efeito, ele defende que a maioria das pessoas não é capaz de fazer uma correta interpretação de um texto, seja o conteúdo deste texto ficcional ou não. É uma afirmação o bocado forte, e potencialmente verdadeira até hoje.

A beleza nesta idéia do filósofo austríaco é a maneira como o conhecimento, que as vezes nos é tão etéreo, ganha uma substancialidade quase real. Na analogia em que ele mesmo faz, assim como as aranhas produzem sua teia e as abelhas sua colméia, assim também produz o homem o conhecimento.

E quando não mais houver abelhas, ou aranhas, ou o homem, ainda haverá o traço de sua existência. Seja pela teia, pela colméia ou pelo terceiro mundo.